O dia em que Caetano convidou um homem a subir ao palco
Autor: Marcus Quintaes
Ao final da sessão, João se faz uma pergunta: mas que homem sou eu?
João é solteiro, mora sozinho e trabalha como engenheiro numa grande empresa do setor de comunicações.
Extremamente formal e rigoroso, é reconhecido no trabalho como modelo de profissional a ser tomado como referência, tendo por isso alcançado posição de destaque na empresa.
João trabalha de 12 a 14 horas por dia e, não raramente, nos finais de semana, costuma ir ao escritório para, segundo ele, resolver "pequenos detalhes".
Homem de poucos amigos, pouco afeito a espaços que não sejam ligados ao trabalho, traz uma história de encontros eventuais com prostitutas, onde, na maioria das vezes, não pretende ter qualquer espécie de contato físico. Quer apenas tê-las ao seu lado, quietas e inofensivas.
João paga para que as mulheres não se movam, paga para que elas não o desejem.
Vem buscar análise após o término de uma breve relação amorosa.
Aos 34 anos, esta tinha sido sua primeira experiência de relacionamento minimamente estável com uma mulher.
Neste território estranho e desconhecido apresentado gratuitamente pela namorada, João faz marcações obsessivas para lá não se perder. Estipula um determinado número de horas para estar com ela. Ao ser convidado por ela para ir a festas ou a qualquer outro lugar, previamente determina o horário da chegada, o tempo de permanência e o momento de ir embora.
Assustado com a imprevisibilidade do novo mundo que lhe é ofertado pela namorada, João tenta a todo custo adequar este mundo à formalidade das regras que determinam a ele próprio.
Recordações de um tempo distante irrompem:
Ser o filho mais novo entre quatro irmãos homens; ter tido o seu corpo usado sexualmente quando menor pelo irmão mais velho; a necessidade de ser reconhecido como homem pelo pai, que sempre se mostrou indiferente a este apelo, diferentemente da mãe, que o escolheu como seu objeto particular e preferido.
João só se considera olhado pelo pai quando este lhe dirige uma ordem imperativa que o acompanhará por toda vida: "Você tem que ser igual ao seu pai e aos seus irmãos para honrar a tua família".
Arremessado ao enigma sexual, habitado pela dúvida, desligado de sua potência e afastado de sua individuação, João aliena-se do seu desejo e buscar desejar o que o pai deseja, afinal, é a honra da família que está em jogo.
Neste cenário marcado pela ausência de Eros, Thanatos faz sua aparição e instala o seu jogo das repetições.
Momento derradeiro para o término da relação com a namorada é quando esta visita-o em seu trabalho. Surpreso com a sua presença, não disfarça a sua irritação e a agride verbalmente, condenando a sua iniciativa. Aceitar a presença da namorada no lugar onde trabalha exige uma flexibilidade de consciência que João ainda não possui, pois para ele, Eros e Logos, respectivamente simbolizados pela namorada e pelo trabalho, são deuses que não podem comungar o mesmo altar. São dimensões que devem se manter nitidamente separadas e afastadas, para que não ocorra o risco de confundir as identidades.
A partir deste breve relato, nascem perguntas: Quem é o sujeito deste discurso? Que forma de masculinidade ele nos revela?
No que a Psicologia Arquetípica de James Hillman pode nos ajudar a responder tais questões?
Jung, em seu livro Tipos Psicológicos, situa sua psicologia como um terceiro lugar entre as perspectivas do corpo e da mente. Afirma que sua psicologia baseia-se na alma, adota a perspectiva da alma, isto é, ela é um esse in anima, um estar na alma.
Privilegiar a alma significa retornar às imagens, pois é assim que a psique se apresenta espontaneamente.
James Hillman irá propor uma psicologia da alma e da imagem. Irá decompor a própria palavra "psicologia" em "logos da psique" para re-significá-la como estórias ou discursos da alma através das imagens. A Psicologia torna-se, então, a capacidade de ouvirmos o que as imagens estão a nos dizer. Imagens estas que, para Hillman, sempre estarão organizadas segundo esta ou aquela fantasia arquetípica.
A partir dos princípios da psicologia arquetípica, queremos pensar o conceito de arquétipos como estruturas fundamentais da imaginação, que com suas variadas perspectivas, influenciam tanto o modo como pensamos e conhecemos o mundo como também as nossas fantasias, nossas linguagens, idéias e metáforas. Se a linguagem dos arquétipos é o discurso metafórico dos mitos, afirmamos que há um deus em cada discurso, isto é, sempre há um deus que rege a narrativa, modelando e moldando as palavras de acordo com as suas características. Invocados ou não invocados, os deuses sempre estarão presentes. Eles habitam a nossa subjetividade e governam os nossos atos.
Logo,estamos sempre envolvidos dentro de uma perspectiva arquetípica ou de uma ficção mítica.
É importante ressaltar que o objetivo não é tentar estabelecer uma tipologia mítica, pois isto é ter uma compreensão literal da mitologia.
O que se propõe é a possibilidade de uma relação imaginativa com os deuses: devemos imaginá-los e sermos imaginados por eles, pois é somente no terreno da metáfora que encontramos o valor dos mitos para vida psíquica.
Os arquétipos e os deuses são considerados, então, como estruturas de ficção, são modos múltiplos e variados de estilos de consciência com suas respectivas retóricas.
Todo Deus possui a sua retórica, a maneira pela qual nos convence sobre nós mesmos, o modo pelo qual falamos de nós próprios, que serve como base pra a ficção que nos sustenta.
Hillman coloca que retórica não é simplesmente a arte ou o sistema da discussão persuasiva: para ele, todo discurso é retórico devido ao fato de que todo arquétipo tem o seu próprio modo retórico, o seu modo próprio de persuadir.
Não há como separar o Deus de sua retórica.
Uma das formas de se cultivar a alma para a Psicologia Arquetípica é criar condições para que se possa aceitar, acreditar e acolher a retórica das ficções.
Retornando a João, perguntamos: Qual a ficção que está a sustentá-lo? Quais são os deuses que se movem neste acontecimento? A quem pertence a sua retórica?
Queremos pensar que o discurso de João se encontra sob a égide e repercute num tipo de vivência que foi associada pelos gregos, num determinado momento do seu pensamento, a uma potência chamada Apolo. Por semelhança, a retórica de João se faz apolínea.
Amante das belas formas, da clareza, de ordem e da verdade, Apolo ensina o valor da distância e, da objetividade para se poder ter uma opinião sensata e justa sobre o mundo e as coisas.
É o princípio da consciência, o representante do Logos, o deus que apresenta a forma racional de pensamento e, conseqüentemente, a possibilidade de se viver civilizadamente.
Porém, todo deus possui a sua infirmitas e a infirmitas deste Apolo é a negação da vida instintiva, vida esta ligada inexoravelmente aos desígnios femininos. Apolo representa um estilo de consciência que possui extrema dificuldade em se relacionar com os aspectos eróticos e femininos da psique, em acolher a Anima, que é o princípio feminino da psique, como também a metáfora básica da Psicologia.
Observando a trajetória de João, percebemos o quanto Apolo está a acompanhá-lo: a exigência excessiva de ordenação que impõe a si para poder estar no mundo, a rígida identificação com o padrão masculino oferecido pelo pai, a dificuldade em poder erotizar suas relações com as mulheres. Se Apolo é o deus da moderação e do comedimento, e se uma de suas máximas é "nada em demasia", sem dúvida, João é um dos seus maiores admiradores.
João, como prisioneiro do logos, se recusa à experiência da anima, se recusa a aprofundar-se nas imagens, a descobrir sua interioridade, a refletir sobre elas e, assim anula a possibilidade de um viver imaginativo e potético.
Porém, como Nietzsche nos ensina, não há Apolo sem Dioniso e João sonha. João relata o seguinte sonho:
Está numa praça, na companhia de vários outros homens. Todos eles, inclusive João, estão vestidos com o uniforme da empresa. Ao olhar para frente, percebe que estão assistindo a um show de Caetano Veloso. No palco, Caetano se apresenta com roupas bufantes e coloridas e tem uma orquestra de mulheres a acompanhá-lo.
De repente, Caetano interrompe o show e convida João para subir ao palco, porém com a condição de que tire o uniforme e suba nu. João se assusta com o pedido, emociona-se e acorda.
João narra o sonho de forma angustiada e desconfortável. Surpreende-se com as imagens e com o convite que lhe é feito. Se indaga o porquê de sonhar com Caetano Veloso, figura pela qual não tem nenhuma admiração, devido, segundo ele, aos trejeitos femininos e à sua ambivalência sexual.
João se pergunta o porquê de ter que sonhar com alguém que repudia e que não é merecedor de sua atenção e o que é isto de ter que ficar nu diante dos outros homens?
Do nosso lado, levantamos outras questões: O que as imagens propõem a João? Que convite lhe está sendo feito? O que Caetano deseja de João?
O sonho de João o inicia em um novo enredo, uma nova ficção. Outro deus é constelado.
Dioniso é convocado e Caetano Veloso é sua encarnação.
Caetano, com seus gestos, suas posturas, suas músicas, sua sexualidade e sua ética, assume, dentro da realidade cultural brasileira, o lugar destinado ao deus Dioniso. Caetano é nosso Dioniso.
Se existe uma visão apolínea do mundo em que prevalecem o princípio do equilíbrio, da harmonia, da pura beleza e da unidade, Caetano é a própria expressão dionisíaca fundada na ruptura, na transgressão, e na subversão da ordem estabelecida.
Caetano é aquele que anuncia aos quatro cantos que "alguma coisa está fora da ordem". Caetano funda, rompe, adere, escapa e espanta, acionando sempre a alavanca subversiva da "Alegria, alegria" para se posicionar indiferente ao coro do pessimismo observador.
Caetano é Dioniso porquê investe contra a camisa de força do sentido para subverter o código a fim de resgatar a palavra em sua potência furiosa desarrumando a semântica apolínea do senso comum.
Caetano nos vêm lembrar que a língua está à espera da transgressão, de um ato de ousadia de quem põe o código a serviço da vontade criadora.
" Gosto de sentir a minha língua roçando a língua de luís de Camões" , diz ele. De modo dionísiaco, Caetano faz com que a língua seja entendida tanto como código linguístico como também objeto erótico.
Mas quem é esse Deus Dioniso - Caetano?
Dioniso é um deus fundamentalmente mundano, afirmador dos valores positivos da vida terrestre.
É o deus da exaltação da alegria, do prazer, do vinho, do amor e da exuberância excessiva, voltado para o riso que liberta e para a comunhão com a natureza selvagem. Dionisio é o deus que o filósofo Nietzsche disse ser um discípulo na sua famosa frase: "Prefiro antes ser um sátiro a um santo".
Dioniso é o deus das múltiplas faces, o deus mascarado que convida os homens ao desafio de vê-lo por sob a máscara ou, quem sabe, a partir dela.
Dioniso é o deus que deve ensinar os homens "a ver o que é preciso ver" , isto é, "a ver o que mais evidente sob o disfarce do mais invisível", conforme Eurípedes nos mostra na peça "As Bacantes".
Porém, o que é mais evidente e ao mesmo tempo mais invisível senão o eterno devir incessante do mundo, potência dionisíaca a subverter todas as categorias lógicas ligadas à identidade e à essência.
Dioniso cancela as categorias que impõem uma dicotomia, não se localizando numa significação específica, mas circulando entre ambas.
Se Apolo é o princípio da identidade, Dioniso é o deus da diferença que, embaralhando os códigos, desconstruindo as aparências, faz com que se comuniquem as categorias antagônicas, confundindo-as e subvertendo-as enquanto conjuntos fechados.
Jogo de presença e ausência, a divindade está sempre em movimento, forma em perpétua mudança, em sua epifania, múltipla e incessante, se mostra ao mesmo tempo masculino e feminino, jovem e velho, longínqüo e próximo.
Se nos deslocarmos para o espaço analítico, veremos que João é aquele que não consegue vêr o deus através das suas máscaras, ou seja, não consegue "vêr o que é preciso vêr".
Paralisado na sua ação, João é aquele que tende a eternizar o que foi contingente e fortuito, tornando-se, desta forma, escravo de identidade das coisas, recusando-se assim a participar do jogo inesgotável do devir.
Refém das identificações, João não pode comungar do vinho dionisíaco a fim de se aventurar na possibilidade de criação de novas ficções, na invenção de outras retóricas, múltiplas subjetividades, quiçá na construção de outras formas de se vivenciar o masculino.
Convém lembrar que um dos epítetos de Dioniso é Lysios, aquele que liberta. Lysios significa afrouxar, liberar, diluir as amarras que constituem o ego e suas identificações para que o deus da metamorfose possa vir a se instalar e brincar de fazer surgir, ao nosso redor e dentro de nós, as múltiplas figuras do Outro ou, como diria Artaud, os inumeráveis estados do ser.
É este então Dioniso. Deus princípio que traz a diferença para subverter o mesmo em todas as suas formas.
Dioniso nos ensina a saber que lá onde habita e clama o que é mais estrangeiro em mim, devo ouvir, levar em consideração, pensar como algo próximo e, por que não, familiar.
Há que se aceitar como a nós mesmos esse estrangeiro/Outro que nos visita.
Deve-se acolher a diferença e se responsabilizar por ela. Responsabilidade como escolha daquele que, para além do bem e do mal, para além de todos os ideais morais apolíneos, das convenções e conveniências, consente em responder por isso que lhe diz respeito, lhe constitui, consente em obedecer aos desígnios do deus.
Creio que é nesta direção que aponta o convite feito por Caetano Veloso a João em seu sonho. Ainda que João negue, a imagem "Caetano Veloso" não é de uma exterioridade absoluta em relação a ele. "Caetano" é uma possibilidade psíquica e exige, agora, de João, sua atenção. O convite que lhe fez, o convoca a sair do espaço da uniformidade dos homens (dos homens uniformes) a fim de poder se singularizar, individuar, a se deslocar do lugar de platéia para o lugar do palco, cenário a testemunhar a construção de um hino afirmativo em relação à sua própria vida.
Há que se despir dos uniformes, velhos hábitos e atitudes que, em João, o condenam a ser um tipo de homem que ele próprio, timidamente ainda, começa colocar em questionamento. O motivo masculino desloca-se do domínio monoteísta e é lançado no terreno fértil e múltiplo do politeísmo. A nudez se faz condição necessária para que novas escolhas bufantes e coloridas possam vir a vestir um corpo que se pretende ser um campo de possibilidades.
Frente à rigidez neurótica, Caetano/Dioniso nos apresentam as leis do acaso, do devir e da multiplicidade. Nos chamam a bailar no movimento inesgotável do mundo a produzir diferenças.
Como o próprio deus que é nômade e não conhece morada fixa, ser o eterno construir e destruir de si próprio, inventando-se a todo momento.
Sustentado por algo que Nietzsche denominou amor fati, que é o dizer sim a tudo que lhe acontece, movimento de exaltação à vida com tudo o que ela tem de bom e de ruim, de perfeito e imperfeito, alegria e dor, entramos, nós e João, no jogo de incessantes mutações para nos tornarmos dignos de poder viver a felicidade do cotidiano.
Queremos celebrar como o coro das bacantes celebra:
"Quem, no dia-a-dia, desfruta a felicidade da vida, este eu proclamo feliz como os deuses".
Bibliografia
JUNG, C. G.
Tipos Psicológicos. Ed. Vozes.
HILLMAN, JAMES
Healing Fiction. Spring Publications.
Psicologia Arquetípica. Ed. Cultrix.
Entre Vistas. Ed. Summus.
O Mito da Análise. Ed. Paz e Terra.
Re-visioning Psychology. Harper e Row.
NAFFAH NETO, Alfredo.
O Inconsciente como Potência Subversiva. Ed. Escuta.
A Psicoterapia em Busca de Dionisio. Ed. Escuta.
VERNANT, J. P.
Mito e Tragédia na Grécia Antiga. Ed. Brasiliense.
NIETZSCHE, F.
A Origem da Tragédia. Companhia das Letras.
Ecce Homo, Companhia das Letras.
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Marcus Quintaes
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